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10 maio, 2013

O dia em que Fidel Castro pediu 10 doláres ao presidente Roosevelt


Pequenos detalhes da história da humanidade podem não ser signficativos para os rumos da própria história, mas podem ser interessantíssimos. E um destes seria uma troca de correspondências entre um menino morador de Santiago de Cuba, chamado Fidel Castro, e o presidente dos Estados Unidos Franklin D. Rossevelt (ou algum assessor seu).


O que se sabe é que por volta dos 13 ou 14 anos de idade, o jovem Fidel teria escrito uma singela carta ao presidentes dos EUA e que teria recebido uma resposta, o que teria provocado um certo rebuliço em sua escola na época.

Sobre o conteúdo da carta há pequenas divergências no conteúdo, mas todas mais ou menos com a mesma linha. Segundo Ignacio Ramonet, eem seu livro Fidel Castro - biografia a duas vozes, a carta teria sido a seguinte:

"Presidente dos Estados Unidos... Se o senhor quiser, me dê uma nota verde americana de dez doláres na carta, porque nunca vi uma nota verde americana de dez dólares e eu gostaria de ter uma. Meu endereço é Sr. Fidel Castro, colégio Dolores, Santiago de Cuba, Oriente-Cuba... Não sei muito inglês mas sei muito espanhol, e imagino que o senhor não sabe muito espanhol mas sabe muito inglês, porque o senhor é americano mas eu não sou americano...".

Infelizmente não consigo achar a resposta, mas informações dão conta de que ela existiu. Óbvio que sem o dinheiro, mas existiu.

O próprio Fidel fala de piadas que viriam a ser feitas posteriormente acerca da possibilidade de termos uma história mundial diferente se o Roosevelt tivesse mandado a danada da nota de 10 dólares kkk.

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02 abril, 2013

Canción del Sainete Póstumo

Uma sugestão do professor e amigo cubano, Dr. Luís Bello, que me mantém informado acerca das novidades da querida e amada Havana, em Cuba.


Canción del Sainete Póstumo
De Rubén Martínez Villena

Rubén Martínez Villena



Yo moriré prosaicamente de cualquier cosa.
El estomago, el hígado, la garganta, el pulmón.
Y como buen cadáver descenderé a mi fosa envuelto en un sudario santo de
compasión.
Aunque la muerte es algo que diariamente pasa. Un muerto inspira siempre cierta
curiosidad.
Así, llena de extraños abejeará la casa y estudiará mi rostro toda la vencidad.
Luego, será el velorio. Desconocida gente, ante mis familiares inertes de llorar,
con el recelo propio del que sabe que miente recitará las frases del pésame
vulgar.
¿Tal vez una beata?, neblinosa de sueño, mascullará el rosario mirándose a los
pies. Y acaso los más viejos me fruncirán el seño al calcular su turno más próximo
después.
Brotará la hilarante virtud del disparate o la ingeniosa anécdota llena de
perversión. Y las apetecidas tazas de chocolate serán sabrosas pausas en la
conversación.
Los amigos de ahora, para entonces dispersos, reunidos junto al resto de lo que
fue mi yo, constatarán la escena que prevén estos versos y dirán en voz baja, todo
lo presintió.
Y ya en la madrugada, sobre la concurrencia, gravitará el concepto solemne del
jamás, vendrá luego el consuelo de seguir la existencia y vendrá la mañana, pero
tú, no vendrás.
Allá, donde vegete felizmente tu olvido, felicidad bien lejos de la que pudo ser,
bajo tres letras fúnebres, mi nombre y apellidos dentro de un marco negro te harán
palidecer.
Y te dirán ¿Qué tienes? Y tú dirás que nada. Mas te irás a tu alcoba para disimular
me llorarás a solas con la cara en la almohada y esa noche tu esposo no te podrá
besar.



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10 janeiro, 2013

Os impasses do "lulismo": Entrevista com André Singer



Reproduzo abaixo entrevista do Jornal Brasil de Fato com o cientista político André Singer, autor de "Os sentidos do Lulismo". É um livro fantástico que nos ajuda a entender um bocado da conjuntura atual e para onde caminha a política em nosso país.


Leia entrevista (na íntegra) com o cientista político André Singer, autor de "Os sentidos do lulismo", um empenho na direção de compreender o seu significado e o atual momento histórico do Brasil
03/01/2013
Fernanda Becker e Antônio David 
especial para o Brasil de Fato

   
 Singer: “Não há como pensar num processo de mudança dentro do capitalismo
que não passe pelo consumo” - Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABr
   
Os sentidos do lulismo, de André Singer, é um empenho na direção de compreender o significado do lulismo e o atual momento histórico do Brasil. Seu foco é lançar luz sobre as contradições que permeiam tanto um como o outro. Para tanto, André Singer parte de uma constatação estarrecedora: no ano da chegada do PT ao poder, o Brasil era o país mais desigual do mundo. Por razões que remontam ao passado colonial, havia no Brasil uma “sobrepopulação trabalhadora superempobrecida permanente”, que estaria abaixo da condição proletária – seria o subproletariado. Responsável pela derrota de Lula em 1989, o subproletariado, segundo André Singer, teria se convertido em base do lulismo. Ao mesmo tempo e pelos mesmos motivos, a classe média se afastaria do PT.
André Singer vale-se largamente da sociologia eleitoral, mas seu livro não se restringe a essa disciplina. Seu objetivo é oferecer não uma interpretação, mas elementos para uma interpretação da conformação de classes e da luta de classes no Brasil. Trata-se de um livro repleto de hipóteses, que só poderão ser confirmadas com o tempo e, em alguns casos, mediante trabalhos de pesquisa. Ao análisar a relação entre o lulismo e o subproletariado, André Singer discute as mudanças na estrutrura socio-econômica do Brasil e suas repercussões políticas e ideolpógicas na sociedade e nos partidos. Em entrevista para o Brasil de Fato, André Singer esclarece algumas das ideias centrais do livro, além de abordar as eleições municipais de 2012.
André Singer é jornalista e cientista político. Fez mestrado, doutorado e livre-docência no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, onde é professor. Foi porta-voz e secretario de imprensa da presidência da República entre 2003-2007. Autor deEsquerda e direita no eleitorado brasileiro (2000) e O PT (2001). 

09 janeiro, 2013

La demonización de Chávez

Comandante Hugo Chávez


Por Eduardo Galeano

Hugo Chávez es un demonio. ¿Por qué? Porque alfabetizó a 2 millones de venezolanos que no sabían leer ni escribir, aunque vivían en un país que tiene la riqueza natural más importante del mundo, que es el petróleo.

Yo viví en ese país algunos años y conocí muy bien lo que era. La llaman la “Venezuela Saudita” por el petróleo. Tenían 2 millones de niños que no podían ir a las escuelas porque no tenían documentos. Ahí llegó un gobierno, ese gobierno diabólico, demoníaco, que hace cosas elementales, como decir “Los niños deben ser aceptados en las escuelas con o sin documentos”. Y ahí se cayó el mundo: eso es una prueba de que Chávez es un malvado malvadísimo.

Ya que tiene esa riqueza, y gracias a que por la guerra de Iraq el petróleo se cotiza muy alto, él quiere aprovechar eso con fines solidarios. Quiere ayudar a los países suramericanos, principalmente Cuba. Cuba manda médicos, él paga con petróleo. Pero esos médicos también fueron fuente de escándalos. Están diciendo que los médicos venezolanos estaban furiosos por la presencia de esos intrusos trabajando en esos barrios pobres.

En la época en que yo vivía allá como corresponsal de Prensa Latina, nunca vi un médico. Ahora sí hay médicos. La presencia de los médicos cubanos es otra evidencia de que Chávez está en la Tierra de visita, porque pertenece al infierno. Entonces, cuando se lee las noticias, se debe traducir todo. El demonismo tiene ese origen, para justificar la máquina diabólica de la muerte.


Fonte: http://www.theclinic.cl/2013/01/06/la-demonizacion-de-chavez/
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26 dezembro, 2012

Aos Sonhos - Ademar Bogo


Do livro Cartas de Amor de Ademar Bogo


Cartas de amor Nº 9

AOS SONHOS

É proibido sonhar quando a alma não quer sentir e, nem sequer imaginar os passos que deve dar, teimando em se acomodar pra não ver a flor florir.

Há sonhos que dão errado. Há sonhos de desespero. Há sonhos de pesadelos e, alguns de solidão. Há sonhos egoístas, fatalistas, entreguistas que alimentam a exploração.

Os sonhos verdadeiros são coerentes; espalham em cada passo um bocado de sementes, para fazer o jardim do amanhecer. São os que movem as mãos e os braços, para oferecer o corpo, aos abraços de prazer.

Sonhar que se está sozinho é não ser nada. Os sonhos são a madrugada que espera o dia se fazer. Pesadelo não existe para quem sonha ao lado de alguém que também sonha. Que não se envergonha de sonhar com outro alguém, que busca o mesmo destino, como o menino que chama pela mãe.

Sonhar é não querer ir só para um lugar melhor. É ver em cada olhar um pedaço do lugar onde descansa a esperança. Quem sonha sempre é criança; tem energia, tem alegria, tem confiança...

É duro sonhar perto dos desanimados. É como ver a flor se abrir às margens de um rochedo: o sonho é engolido pela indecisão e o medo. 

06 dezembro, 2012

Autodefinição por Oscar Niemeyer



Autodefinição
Na folha branca de papel faço o meu risco.
Retas e curvas entrelaçadas.
E prossigo atento e tudo arrisco na procura das formas desejadas.
São templos e palácios soltos pelo ar, pássaros alados, o que você quiser.
Mas se os olhar um pouco devagar, encontrará, em todos,
os encantos da mulher.
Deixo de lado o sonho que sonhava.
A miséria do mundo me revolta.
Quero pouco, muito pouco, quase nada.
A arquitetura que faço não importa.
O que eu quero é a pobreza superada,
a vida mais feliz, a pátria mais amada.
                                              Oscar Niemeyer


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03 novembro, 2012

Proclamação do amor antigramática



Por Mário Lago

Dá-me um beijo", ela me disse,
E eu nunca mais voltei lá.
Quem fala "dá-me" não ama,
Quem ama fala "me dá"
"Dá-me um beijo" é que é correto,
É linguagem de doutor,
Mas "me dá" tem mais afeto,
Beijo me-dado é melhor.
A gramática foi feita
Por um velho professor,
Por isso é tão má receita
Pra dizer coisas de amor.
O mestre pune com zero
Quem não diz "amo-te". aposto
Que em casa ele é mais sincero
E diz pra mulher: "te gosto"
Delírio dos olhos meus,
Estás ficando antipática.
Pelo diabo ou por deus
Manda às favas a gramática.
Fala, meu cheiro de rosa,
Do jeito que estou pedindo:
"Hoje estou menas formosa,
Com licença, vou se indo".
Comete miles de erros,
Mistura tu com você,
E eu proclamarei aos berros:
"Vós és o meu bem querer

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07 agosto, 2012

Liberdade


Liberdade 

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte. 

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome.

Marighella


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16 fevereiro, 2012

Reconhecimento - de Jorge Amado a Carlos Marighella


Reconhecimento


 Jorge Amado

 “Chegas de longa caminhada a este teu chão natal, território de tua infância e adolescência.
Vens de um silêncio de dez anos, de um tempo vazio, quando houve espaço e eco apenas para a mentira e a negação.
Quando te vestiram de lama e sangue, quando pretenderam te marcar com o estigma da infâmia, quando pretenderam enterrar na maldição tua memória e teu nome.
Para que jamais se soubesse da verdade de tua gesta, da grandeza de tua saga, do humanismo que comandou tua vida e tua morte.
Trancaram as portas e as janelas para que ninguém percebesse tua sombra erguida, nem ouvisse tua voz, teu grito de protesto.
Para que não frutificasses, não pudesses ser alento e esperança.
Escreveram a história pelo avesso para que ninguém soubesse que eras pão e não erva daninha, que eras vozeiro de reivindicações e não pragas, que eras poeta do povo e não algoz.
Cobriram-te de infâmia para que tua presença se apagasse para sempre, nunca mais fosse lembrada, desfeita em lama.
Esquartejaram tua memória, salgaram teu nome em praça pública, foste proibido em teu país e entre os teus.
Dez anos inteiros, ferozes, de calúnia e ódio, na tentativa de extinguir tua verdade, para que ninguém pudesse te enxergar.
De nada adiantou tanta vileza, não passou de tentativa vã e malograda, pois aqui estás inteiro e límpido.
Atravessaste a interminável noite da mentira e do medo, da desrazão e da infâmia, e desembarcas na aurora da Bahia, trazido por mãos de amor e de amizade.
Aqui estás e todos te reconhecem como foste e serás para sempre: incorruptível brasileiro, um moço baiano de riso jovial e coração ardente.
Aqui estás entre teus amigos e entre os que são tua carne e teu sangue. Vieram te receber e conversar contigo, ouvir tua voz e sentir teu coração.
Tua luta foi contra a fome e a miséria, sonhavas com a fartura e a alegria, amavas a vida, o ser humano, a liberdade.
Aqui estás, plantado em teu chão e frutificarás. Não tiveste tempo para ter medo, venceste o tempo do medo e do desespero.
Antonio de Castro Alves, teu irmão de sonho, te adivinhou num verso: “era o porvir em frente do passado”.
Estás em tua casa, Carlos; tua memória restaurada, límpida e pura, feita de verdade e amor.
Aqui chegaste pela mão do povo. Mais vivo que nunca, Carlos”.
     Texto escrito por Jorge Amado, amigo de Marighella e seu companheiro na bancada comunista da Assembléia Nacional Constituinte e na Câmara dos Deputados entre 1946 e 1948.
Lido por Fernando Santana em 10 de dezembro de 1979 – Dia Universal dos Direitos do Homem – por ocasião do sepultamento dos restos mortais de Marighella no cemitério das Quintas, em Salvador.


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06 fevereiro, 2012

Canção para os Fonemas da Alegria

Thiago de Mello em aquarela
Escrito no Chile em 1964 por Thiago de Mello e dedicado a Paulo Freire


Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor

quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,

e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas

são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:

porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão

que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena paga por ser homem,
mas o modo de amar – e de ajudar

o mundo a ser melhor. Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:

ele atravessa os campos espalhando
a boa-nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte

contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:

canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

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16 novembro, 2011

O Mundo está ao Avesso. De Pernas pro Ar.

"Há cento e trinta anos, depois de visitar o País das Maravilhas, Alice entrou num espelho para descobrir o mundo ao avesso. Se Alice renascesse em nossos dias, não precisaria atravessar nenhum espelho: bastaria que chegasse à janela. No fim do milênio, o mundo ao avesso está à vista de todos; o mundo tal qual é, com a esquerda na direita, o umbigo nas costas e a cabeça nos pés."

Dessa maneira Eduardo Galeano abre o seu livro "De Pernas pro Ar - A Escola do Mundo ao Avesso". Daqui a centenas de ano será documento fundamental para compreender o quão é absurdo o mundo em que vivemos hoje.

O tempo todos nos chegam notícias que explicitam isso. Tudo num volume tão grande que muitas vezes as notícias mais recentes vão deixando cair no esquecimento mesmo a mais grave das situações.

Uma delas eu faço questão de resgatar. Trata-se de uma excelente reportagem feitas por Charles Souto para o Jornal Brasil de Fato, publicada em 25 de julho de 2001. Segue abaixo.

Ahhh. Quais outras notícias de 2011 escancararam que o mundo está de fato ao avesso?


Comenta aí!


"Médicos das Usinas dão pinga para cortar o efeito do agrotóxico no corpo"
Para continuar lendo Clique no Link abaixo

24 setembro, 2011

A Atenção Primária Ideal em Cordel


Uma postagem em homenagem ao meu amigo Thiago Gaúcho com o seu cordel da Atenção Primária!


A Atenção Primária Ideal
ou
O Vôo do Boi Voador

Este é um exercício de sonho
que a gente faz no coletivo e não no individual,
vamos juntos todas e todos pensar e sonhar
com a APS ideal

Vamos aproveitar a Cultura de nossa cidade natal
e deixar nossa mente voar livremente
que nem aquele boi de Nassau

03 agosto, 2010

A Tomada da Reitoria

Ofereço-lhes mais um dos sempre bons artigos do professor e amigo Lurildo Saraiva. Tenho certeza que gostarão, assim como aconteceu com o último. A propósito, quem não o viu, pode acessá-lo clicando aqui

Governador BIÔNICO Nilo Coelho

A tomada da Reitoria

Em 2 de outubro de 1968 fui avisado que no dia seguinte, uma quinta-feira, iríamos falar com o Reitor Murilo Guimarães, de uma forma ou de outra. A situação difícil e precária do hospital Pedro II nos exigia uma ação radical, com provável ocupação da Reitoria. Na verdade, houve séria discussão sobre essa manifestação, os que estavam ligados ao “Partidão” foram contra, a exemplo de Carmem Chaves, mas venceu na votação a linha adotada pela Ação Popular, a qual se alinhava a liderança do DA. Nesse ano, já estava um tanto afastado da diretoria do DA, então comandado por Marcos Burle de Aguiar, mas mesmo no curso clínico, me mantinha a par dos acontecimentos, apoiava e participava da luta.

A Reitoria da UFPE ocupava prédio situado em frente à Sétima Região Militar, atual representação do Ministério da Educação, nas cercanias do IV Exército: local inapropriado para qualquer manifestação estudantil, no ano em que, como forças antípodas, o governo militar e o movimento estudantil, orientado pela UNE, estavam cada vez mais radicais em suas posições. Numa atitude que me seria depois muito útil – álibi usado na minha defesa do decreto-lei 477 - pedi ao colega Roberto Guimarães que assinasse a minha presença em aula de Obstetrícia, que ocorreria na tarde do dia programado.

07 fevereiro, 2010

Rafael Barrett por Eduardo Galeano


Há alguns meses publiquei aqui no Propalando um texto acerca do livro "Soledad no Recife" de Urariano Mota. (veja aqui)

Pois bem. Lendo o livro "O Século do Vento", volume 3 da série Memória do Fogo de Eduardo Galeano me deparo com dois pequenos textos sobre Rafael Barrett, avô da militante Soledad Barrett, personagem do livro de Urariano.

Eis os escritos:

Barrett

Pode ser que ele tenha vivido no Paraguai antes, séculos ou milênios antes, quem sabe quando, e tinha esquecido. O certo é que há quatro anos, quando por acaso ou curiosidade Rafael Barrett desembarcou neste país, sentiu que tinha chegado a um lugar que o estava esperando, porque este infeliz lugar era seu lugar no mundo.

Desde então discursa para o povo nas esquinas, trepado num caixote, e nos jornais e folhetos publica furiosas revelações e denúncias. Barrett se mete nesta realidade, delira com ela e nela se queima.

O Governo o expulsa. As baionetas empurram para a fronteira o jovem anarquista, deportado por ser agitador estrangeiro.

O mais paraguaio dos paraguiaos, a raiz mais plantada neste terra, a saliva mais saliva desta boca, nasceu nas Astúrias, de mãe espanhola e pai ingles, e educou-se em Paris.

As plantações de Mate

Um dos pecados que Barrett cometeu, imperdoável violação de tabu, é a denuncia da escravidão nas plantações de erva-mate.

Quando, há quarenta anos, acabou a guerra de extermínio contra o Paraguai, os países vencedores legalizaram, em nome da civilização e da liberdade, a escravidão dos sobreviventes e dos filhos dos sobreviventes. Desde então os latifundiários argentinos e brasileiros contam por cabeças, como se fossem vacas, seus peões paraguaios.

27 outubro, 2009

Soledad no Recife


Há tempos um livro não me tocava como tocou Soledad no Recife de Urariano Mota. Tudo bem, o tempo pode ser um exagero, afinal não completaram-se nem 6 meses do último livro de Fausto Wolff que li (O Homem e seu Algoz). Mas não exagero sobre a sensação proporcionada pela leitura.

Poderia esperar mais tempo para digerí-lo melhor, mas não. Preferi compartilhar logo este sentimento, mesmo que caótico.

No livro, o pernambucano Urariano Mota remonta os episódios que antecederam a chacina da Chácara de São Bento (PE), mais um dos crimes da ditadura. Com um detalhe, pelas palavras de Alípio Freire na orelha do livro: "Este, porém, se destaca dos demais: os militantes foram assassinados com participação direta de um ex-companheiro que passara para a repressão e se infiltrara no movimento, José Anselmo dos Santos, o cabo Anselmo. Uma das militantes assassinadas, Soledad Barrett Viedma, a Sol, era sua própria mulher - e estava grávida."

Mais do que um relato histórico, esta é uma obra ficcional em que Urariano usa e abusa (no bom sentido) da poesia e nos presenteia com uma verdadeira obra de arte. Arte porque é poesia e arte porque é mais um instrumento que nos faz entender e não nos esquecer este período tão sombrio em nossa história.
É um livro triste, é bem verdade, mas não menos que essa mancha, deixada em nosso país, pela ditadura.

Flávio Aguiar na apresentação do livro diz: "Urariano Mota criou uma ficção tão impressionante que parece de verdade. De certo modo é de verdade, porque mobiliza sentimentos, sensações, percepções, culpas, paixões, ódios que foram (e são) poderosos e comuns a todos os que viveram os anos de chumbo, e a eles sobreviveram. É um romance de amor que se passa em tempos contrários ao amor"
Ousaria complementar dizendo que não mobiliza sentimentos e sensações apenas nos que viveram os anos de chumbo. Nos que não viveram também, mas que têm um mínimo de humanidade e solidariedade.

Sei que a estas alturas, a web deve estar repleta de análises sobre Soledad no Recife. Mas é até bom, pois grande parte foram produzidas por críticos literários de verdade. Minha intenção aqui foi apenas compartilhar, como falei, e recomendar a leitura!





14 outubro, 2009

Carlos Marighella vive!

Marighella vive!

Rondó da Liberdade
(Carlos Marighella)

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.

20 maio, 2009

Homenagem a Mario Benedetti

Por que Cantamos (Mário Benedetti)

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram as árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas

19 outubro, 2008

O Torcedor, por Eduardo Galeano

Tenho tido uma preocupação: de alguma maneira justificar minha paixão pelo futebol (acho que é mais pelo Sport Club do Recife, que por futebol mesmo, mas deixa para lá...)

Adotei a tática, então, de buscar em referenciais teóricos da esquerda essa justificativa. Seguindo a linha, estou lendo agora "Futebol ao sol e à sombra" de Eduardo Galeano, escritor de "As veias abertas da América Latina", tão caro à minha formação.

Segue abaixo um lindo texto, do supracitado livro, entitulado "O torcedor":

Uma vez por semana, o torcedor foge de casa e vai ao estádio.

Ondulam as bandeiras, soam as matracas, os foguetes, os tambores, chovem serpentinas e papel picado: a cidade desaparece, a rotina se esquece, só existe o templo. Neste espaço sagrado, a única religião que não tem ateus exibe suas divindades. Embora o torcedor possa contemplar o milagre, mais comodamente, na tela de sua televisão, prefere cumprir a peregrinação até o lugar onde possa ver em carne e osso seus anjos lutando em duelo contra os demônios da rodada.

Aqui o torcedor agita o lenço, engole saliva, engole veneno, come o boné, sussura preces e maldições, e de repente arrebenta a garganta numa ovação e salta feito pulga abraçando o desconhecido que grita gol ao seu lado. Enquanto dura a missa pagã, o torcedor é muitos. Compartilha com milhares de devotos a certeza de que somos os melhores, todos os juízes estão vendidos, todos os rivais são trapaceiros.

É raro o torcedor que diz: “Meu time joga hoje”. Sempre diz: “Nós jogamos hoje”.

Este jogador número doze sabe muito bem que é ele quem sopra os ventos de fervor que empurram a bola quando ela dorme, do mesmo jeito que os outros onze jogadores sabem que jogar sem torcida é como dançar sem música.


Quando termina a partida, o torcedor, que não saiu da arquibancada, celebra sua vitória, que goleada fizemos, que surra a gente deu neles, ou chora sua derrota, nos roubaram outra vez, juiz ladrão. E então o sol vai embora, e o torcedor se vai. Caem as sombras sobre o estádio que se esvazia. Nos degraus de cimento ardem, aqui e ali, algumas fogueiras de fogo fugaz, enquando vão se apagando as luzes e as vozes. O estádio fica sozinho e o torcedor também volta à sua solidão, um eu que foi nós; o torcedor se afasta, se dispersa, se perde, e o domingo é melancólico feito uma quarta-feira de cinzas depois da morte do carnaval.

20 agosto, 2008

A Saudade da Pernambucanidade


Quando meu amigo Gaúcho chegou em Recife depois de um temporada em Uberlândia, terra de Natália, sua namorada, pedi que escrevesse algo para eu publicar no Propalando. Ele demorou um pouco, mas eis aqui o texto.

Teria sido uma experiência mais interessante caso ele tivesse passado alguns anos fora, mas não foi o caso... haha

Pois bem... Segue abaixo o texto. E aproveito para testar uma nova funcionalidade do blog. Para ler o texto completo é preciso clicar no ícone que aparece em formato de positivo ou cruz ou o que quer que seja.

A Saudade da Pernambucanidade

Passar um tempo longe destas terras me deu uma perspectiva diferente. Parece clichê, eu sei. É aquele velho papo de que se sente saudade das coisas quando se está longe. Porém, a saudade desta terra foi algo que ultrapassou o que se pode chamar de saudade.
Não foi apenas a saudade de uma terra, da família e dos amigos, mas sim de todo um conjunto de coisas que faz a Pernambucanidade. O povo, as ruas, as notícias, os problemas, as praias, as músicas, as chuvas inesperadas, os alagamentos, os debates, os revolucionários, os reacionários, enfim, tudo me deu saudade.

Não, não era a saudade de passear na praia de Boa Viagem e ver ostentado num arranha-céu o nome de um dos Coronéis que ainda reinam por estas bandas. Não, não era a saudade de andar por um centro de cultura capitalista (ou seja, cultura de dinheiro internacional) que muitos daqui arvoram ser o maior Shopping da América Latina. Não, não era a saudade de ver cerâmicas ou esculturas de mais uma família mandante. Não, não era saudade de ir pra boates que tocam músicas originadas em Londres ou Nova Iorque funcionando como mais uma correia de transmissão do Imperialismo da língua inglesa sobre nós, pobres latinoamericanos.
Era saudade do Forró! Me roí todinho assistindo pela televisão o São João de todo este Nordeste sabendo que de onde eu estava, a única manifestação parecida que eu vi foi uma dupla sertaneja cantando numa praça, com todo mundo sentadinho tomando seu quentão. Foi saudade desse rala-bucho gostoso, do suor dançante na testa, das letras que exaltam a cultura nordestina e os costumes destes que um dia hão de liderar a revolução brasileira.
Era saudade do nosso calorzinho morno! Era saudade do cuzcuz com salsicha, da macaxeira com charque, do queijo de coalho, da tapioca, de peixe de mar, de camarão, de sururu, de marisco, de inhame com ovo.
Era saudade dos mercados municipais! Acredite quem quiser, mas lá não se bebe em Mercado Municipal! Como assim, cara pálida???? Como não ter saudade de um Mercado da Madalena e seu arrumadinho? Como não ter saudade do Mercado da Boa vista e de sua cerveja gelada acompanhando um pirão?
Era saudade deste povo. Deste povo que se articula, deste povo que sonha, deste povo que luta, deste povo de luta! Deste povo herdeiro da Revolução Pernambucana, do patriotismo primo nestas terras brasileiras. Era saudade até dos reacionários, que, comparados com os de lá, quem diria, são considerados centristas.
Era saudade do nosso bairrismo. Era saudade da Bombonilha! Era saudade das ruas do Recife antigo, que remontam à épocas de velhas e novas dominações imperialistas, mas que aqui e acolá, vemos as marcas da Resistência, de um povo que não se deixa abater. Pixações e grafites, rua da Aurora, rua da Moeda, e tantas outras ruas do centro do meu recife.
Era saudade também dos cheiros de nossa terra. Este cheiro de mar, que só pelo cheiro me enche de Esperança Libertária, como se ele mesmo fosse responsável pelo sonho de liberdade desse povo. Era saudade do cheiro do mangue, que nos faz lembrar dia a dia que os homens e os caranguejos se misturam num ambiente, que um depende do outro pra sobreviver, e que se mantivermos as coisas como estão, um vai acabar virando o outro. Era saudade do cheiro acre da Agamenon Magalhães, uma chaga na face do Recife, ou melhor, vários dentes cariados, fétidos, que deixam à vista de quem quiser ver a imundície que a raça humana produz, e que joga direto no rio, que vai pro mar, que estes mesmos humanos se esbaldam no domingo....
Thiago Henrique (Gaúcho) – http://galinhacabidela.blogspot.com