Enquanto Cabral discutia com Joban sobre a possibilidade de tropas federais policiarem o Rio permanentemente, recebi a última carta de leitor do dia. Massageou o meu ego (por ordem médica, não sai de casa nem recebe visitas), dizendo que minha coluna lhe dá a sensação de que alguém está fazendo alguma coisa. Pediu que escondesse sua identidade e endereço e que se isso fosse ferir os meus princípios, não publicasse nada. Como o leitor me mandou o número de seu telefone, não tive dificuldades em descobrir que ele existe mesmo.
Ele mora com a companheira num dos muitos acessos para a favela ###, cujo nome não publico, pois o leitor correria risco de vida. Há muitos furos de balas nas paredes de sua casa e, quando é dia de tiroteio, o casal dorme no chão do quarto dos fundos. Eles sabem de antemão o que vai acontecer porque, minutos antes, os bandidos se exibem com motos e carros roubados. Os garotos que são seguranças param na última barreira de trilhos verticais antes do asfalto. É quando chega o chefe da vez, sempre com grossos colares e pulseiras de ouro. A guerra começa assim que um olheiro informa ao chefe a rua pela qual os policiais estão subindo.
Os moradores têm medo dos bandidos, mas têm mais medo da polícia, que invade casas e barraco a qualquer hora do dia, dando tiros a esmo. Os bandidos também pouco se importam se matam uma pessoa inocente que nada tem a ver com esse ritual de confronto. Eis o que dizem os moradores: "A polícia não quer acabar com os bandidos porque também lucra com o tráfico".
Duas semanas atrás, numa sexta-feira, o caveirão teria aparecido na favela para receber o "seu" e não atrapalhar o baile funk. Deram alguns tiros para o ar, a fim de mostrar serviço, se exibir e amedrontar os moradores, e foram embora. Poucos minutos depois chegaram os ônibus lotados de passageiros de outros morros. Alguns mais graduados receberam drogas, a título promocional.
Segundo dizem, os ônibus são cedidos em troca de favores sexuais de algumas mulheres para os donos das frotas. A polícia, por sua vez, não inibe sua subida e assim colabora com a capitalização do tráfico, a compra de mais cocaína, maconha e armas, naturalmente. A coisa piora nas operações maiores da Força Nacional. Quando isso acontece, basta ver a expressão nos rostos dos adultos e, principalmente, das crianças, para entender o que é terror.
O resultado disso tudo - diz o leitor - é que o tráfico está onde sempre esteve. A presença da Força Nacional fez com que os bandidos acalmassem um pouco, mas continuam tendo, como sempre, total controle sobre o território. Nos acessos para o morro ficam, de dia, os soldados da Força Nacional e, à noite, os da Polícia Militar, os irmãos pobres.
Revistas ocorrem de vez em quando, mas há sempre um soldado para informar antecipadamente os bandidos, e as operações geralmente não têm sucesso. Sucesso têm as balas perdidas. A verdade é que existem tantos acessos não vigiados que quem quer levar armas ou drogas para dentro da favela jamais será incomodado.
Diz o meu leitor que, no penúltimo sábado, os policiais desconfiaram de um motoqueiro que podia ou não estar transportando muamba. Ele resolveu fazer o que todo mundo faz quando é chamado pela polícia: fugiu. O caveirão desceu com os soldados atirando a esmo. Quando o carro blindado teve de parar na barreira para deslocar o trilho que impede o trânsito, o motoqueiro, inocente ou culpado, conseguiu escapar. Quem não escapou foi uma dona-de-casa, dona Sandra, que abriu a porta da sua moradia (Rua Canitar, 585, em Inhaúma, e estou colocando o endereço com a permissão do leitor) no momento errado e recebeu um tiro de fuzil no peito.
Não, leitor, não saiu nenhuma nota na imprensa, o que reforça a sensação de que ninguém liga para quem mora no morro. Quando acontece um acidente aéreo, temos a oportunidade de ver o descaso para com o ser humano. Este descaso está presente nas favelas do Rio diariamente, onde se produzem cadáveres anônimos que nem entram nas estatísticas oficiais.
Especificamente, a polícia matou dona Sandra. Continuou a perseguir a moto, mas foi parada por uma parede de concreto atrás da qual estavam os bandidos, que revidaram com suas armas. O caveirão, com os vidros da frente estilhaçados, teve de dar marcha à ré, ocasião em que foi obrigado a levar dona Sandra, que sangrava muito, para o hospital. Ela morreu no mesmo dia.
O leitor termina sua carta dizendo que não tem nenhuma simpatia por bandidos, mas que vê o soldado da polícia e o soldado do tráfico como peças de um mesmo jogo de xadrez: os chefes de ambos os lados, egos inflados, lutando pelo poder.
Acabei de ler a carta do leitor ### e fiquei com medo de pensar no futuro.